Capítulo 6. Derrota e Vitória


Saque à Floresta de Deira

Saqueadores Saxões em Deira

Flechas caíram dos céus. Os cavaleiros foram pegos de surpresa quando um bando de saqueadores investiu contra o vilarejo, avançando pela lateral esquerda da igreja. Em sua carga inicial, mataram inúmeros moradores pelas costas. Em meio à confusão Sir Dorian chamou seus cães e, junto de sir Haggen e Henry, correram em direção ao tumulto, com seus escudeiros armados com espadas e escudos, com exceção de Gabriel, escudeiro de Sir Haggen, que ficara cuidando dos cavalos. Os demais cavaleiros e escudeiros, ainda montados, partiram para contornar a igreja na tentativa de alcançar os arqueiros.

Ao atravessar a multidão ensandecida, os cavaleiros conseguiram alcançar os saqueadores. Uma luta atroz se iniciou, pois ambos os lados estavam desordenados, porém os cavaleiros estavam em menor número. Sir Haggen e Sir Dorian combateram arduamente, mas Sir Henry sentiu um grande terror – via sua morte na desvantagem numérica. Logo no inicio do combate teve seu escudo partido por um machado saxão e, mesmo matando-o, não conseguiu recuperar o ímpeto para lutar.

Os cavaleiros, após eliminarem os arqueiros, avançaram contra a retaguarda saxã. Os escudeiros e os cães, porém, não suportaram a força dos inimigos e, um a um, foram caindo em batalha. Com isso, os saxões que os combatiam avançaram sobre os cavaleiros que foram derrubados. Sir Dorian foi o ultimo a cair, lutou ferozmente até ser gravemente ferido por um machado que o atingiu na clavícula – não fosse sua armadura e habilidade, o golpe teria facilmente atravessado seu tórax. Com a derrota dos cavaleiros apeados, os que estavam à cavalo foram derrubados e por fim todos foram capturados.

Relatos dizem que os saxões, vitoriosos, prenderam os a população sobrevivente na igreja. Então chamaram um batedor que estivera espreitando todo o tempo na mata. Ele caminhou até o meio da vila e apontou o executor do guerreiro enfermo – Sir Henry – e também para aquele que agiu com honra, dando-lhe uma espada – Sir Dorian. Por esse motivo (e acredito minha Senhora, que somente por esse motivo, dado o que aconteceu em seguida) os saqueadores decidiram levar os cavaleiros cativos. 

Os saxões barbarizaram: Mataram os idosos, doentes e inválidos, e esquartejaram o corpo de Sir Henry, expondo seus órgãos e pregando-o na cruz do templo, entre outras atrocidades que devo poupa-la, minha Sehora. Por fim, levaram todos os demais homens, mulheres e crianças para serem escravos, pilharam o que puderam carregar e, roubaram os de animais de rebanho e cavalos, e atearam fogo na vila antes de partir.

Cativeiro Saxão

Três dias se passaram até que Sir Haggen recobrou a consciência. Seu escudeiro, que não havia se ferido, lhe contou tudo que havia ocorrido, inclusive com Sir Henry. Eles, e os demais prisioneiros foram levados para um casebre velho e sujo onde ficaram por dias. Neste tempo foram alimentados com pão velho e água, o suficiente para sobreviverem. Ficaram ali até que um velho saxão entrou e examinou suas feridas. Sir Haggen ardia em febre, seu ferimento ardia e coçava, obviamente infeccionado. O velho, com uma faca afiada, abriu o ferimento provocando uma dor inimaginável. Uma vez aberto, ele depositou algumas larvas no ferimento, o qual tapou com ervas e assim deixou por um dia. Da mesma forma fez com todos os feridos, inclusive Sir Dorian cuja clavícula estava quebrada – ele colocou-a no lugar e prendeu o cavaleiro em uma tala, para que não se movesse. Retirou as larvas no dia seguinte e cobriu o ferimento com novas ervas.

Era obvio o cuidado que os saxões tinham com os prisioneiros. Dias depois eles foram carregados numa carroça pela floresta até a costa. De lá foram para o norte onde alcançaram uma cidade saxã. Era murada por uma paliçada de madeira e tinha um porto repleto de navios saxões. Dentro da muralha haviam casebres de madeira obviamente bretões, provavelmente remanescentes de antes da invasão. Na cidade haviam homens e mulheres de todas as idades, dos mais diversos ofícios. Havia quem trabalhasse em madeira e metal, com navios e com cavalos, embora não houvesse fazendas, haviam muitos rebanhos do lado de fora da cidade.

Era obvio que os saxões estavam ali para ficar. Na cidade os escravos foram levados para o porto onde foram negociados. As mulheres, no entanto, tinham os mais diversos destinos. As mais novas, belas e sortudas conseguiram um marido saxão. As desafortunadas foram abusadas até a morte, prostituídas ou vendidas como escravas.

Os cavaleiros apenas observavam a rotina saxã de sua prisão – uma casa de pedra com palha no chão, onde passam longas semanas. Ocasionalmente saqueadores retornavam com mais escravos, animais e bens. Mais navios chegavam e mais homens partiam no próximo saque. Sir Dorian se recuperou bem, apesar da dor no ombro que o perseguiu até o fim de sua vida. Ele ficou muito chateado com a noticia da morte de Henry que, apesar de tudo, era seu amigo desde a juventude.

Por mais de um mês eles foram cativos dos inimigos. Até que, um dia, foram levados para fora e forçados a caminhar para a floresta. Lá se encontraram com uma tropa saxã, que os conduziu até encontrarem mais uma e depois outra, e então eram um exército. Marcharam pela floresta de Deira até encontrarem uma clareira onde, do outro lado, puderam encontrar bandeiras e brasões Bretões. Um homem adentrou a clareira com um baú pequeno. Então eles foram conduzidos até o centro. E assim eles foram trocados – quatro cavaleiros e seus escudeiros por um baú de libras. De longe, puderam ver o exército saxão se afastar para a floresta – eles nunca esqueceriam do tempo que foram reféns.

Entre Reis

Os cavaleiros enfim foram levados até o homem que supervisionou seu resgate – Heraut de Apres, o Rei Centurião. Ele logo tratou de dizer que suas vidas foram salvas graças a Roderick, que pagou seu preço em ouro. Ao que parece os saxões haviam alardeado que capturaram nobres Bretões e a noticia chegou a Lindsey.

O Rei Herald os interrogou, perguntando cada detalhe da cidade saxã e sua localização, sobre seu exército e seus líderes, e ficou irado ao perceber que não sabiam de muita coisa. Os cavaleiros lhe falaram então das intenções de Uther, sobre a Espada da Vitória e sobre a promessa de expurgar os saxões de uma vez por todas. Intrigado mas ainda desconfiado, o Rei mandou os cavaleiros retornarem a Uther com alguns monges. Esses monges testemunhariam se a palavra deles era verdadeira.

Eles retornaram no início do outono para Lincoln, onde encontraram Uther e seu séquito real. O Rei estava muito contente com os emissários de Malahaut, e era o sinal da boa vontade de Herald. Eles exibiram novamente a espada, da mesma forma espetacular que fizeram com o Duque de Lindsey e com outros incontáveis senhores nortenhos que foram visitá-lo. Os monges, divididos entre os crentes e descrentes em Uther voltaram à Malahaut para relatar o que viram ao Rei Centurião.

Foi com pesar que Roderick recebeu a notícia de que um cavaleiro morreu, mas disse que serviria de aviso aos demais sobre os perigos dos saxões. Disse que o que os motivava era a fome e era esse o motivo pelo qual saíam do inferno onde viviam, atravessavam o mar perigoso e vinham para a Bretanha. A fome é desesperadora e homens desesperados são implacáveis.

No fim do Outono retornaram para casa. O Rei estava bem animado com a boa impressão que causou no norte. Acredita que, agora, seus problemas se concentram nos desleais servos do oeste, na Cornualha. Na corte de Natal, Roderick, Ulfius, Madoc e Brastias discutiam sobre o pedido de ajuda do Praetor Syagrius, da Armórica (a Bretanha Continental, minha Senhora), que queria recuperar seu território tomado pelos Francos. Há muito já se falava sobre isso, mas até então o séquito real estava ocupado. A discussão levou todo o inverno e as opiniões foram muito divididas.

De volta em casa o merecido descanso. Em Tisbury, Sir Haggen recebeu a notícia do nascimento de sua filha, June, mas a alegria durou pouco pois logo soube do falecimento de sua mãe. Haggen se apegou ainda mais a sua, agora crescente, família. Em Baverstock, um dos primos de Sir Dorian morreu em um ataque de lobos – era hora de agir. Ele reuniu todos os seus familiares e caçou a alcateia que aterrorizou seu feudo durante os últimos anos. Vitorioso, usou o pelo do lobo alfa como troféu, transformando-o em um grande manto.

Por fim, os eventos neste ano fizeram Sir Dorian temer sua morte prematura – como seu pai não havia deixa mais herdeiros, sua linhagem se acabaria. Ele foi tomado pelo desespero, nas lembranças da batalha e na morte de seu amigo Henry. Aquilo o consumiu física e psicologicamente e desesperado, foi à corte de Sarum procurar por pretendentes, sem sucesso.

Haviam boatos de que uma sombra caminhava pelo feudo de Wylye que, sem senhor, começou a definhar. Boatos dizem que o Bispo Roger propôs ao earl Roderick que a Igreja tomasse conta do feudo até que Deus, Nosso Senhor apontasse alguém digno e legítimo ao posto de senhor desse feudo


Frade Derfel
Janeiro do ano de Nosso Senhor de 573

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